quinta-feira, 9 de junho de 2016

Trabalho escravo?

A acusação de trabalho escravo em Serra Branca, escândalo que envolve o vereador serra-branquense Carlos Kleber (PSDB), líder do governo na câmara municipal e único paraibano com este sinal difamante na tal lista de escravocratas, remete a uma reflexão mais profunda acerca desse episódio vergonhoso: Afinal, que é trabalho escravo contemporâneo?

O acusado prefere atacar adversários imaginários e inverter a ordem do crime se dizendo vítima de usuários do facebook, etecetera e coisa e tal, em vez de encarar a dura realidade: prática de trabalho escravo para ganhar dinheiro. Sabe aquela história do sujeito que se acha mais esperto do que o mundo? É o caso. O mundo caiu sobre a própria cabeça.

Apenas para explorar um aspecto dessa história tenebrosa: Os trabalhadores escravizados não se veem como tal porque são livres para ir e vir, têm o poder de decidir se querem ou não trabalhar na pedreira, recebem uma remuneração e não podem ser vendidos como coisas.

Outro dia testemunhei um desses trabalhadores da tal pedreira do Tamboril procurando a perícia do INSS em Campina Grande para tentar se aposentar como agricultor porque, segundo ele, “estava aleijado de tanto quebrar pedra na mesma posição durante anos”. Quem conhece pessoas que trabalham em pedreiras clandestinas sabe das condições miseráveis de insalubridade.

Ora, está-se num trabalho livre, ganha pelo que produz, não é vendido como cativo, não se acha escravo. Mas uma vez deformado – e “imprestável”  segundo suas próprias palavras – quer se aposentar como agricultor porque “tem a carteira do sindicato rural e todo ano que chove planta uma hortinha para comer feijão verde e milho assado ...”

Se a pedreira não fosse clandestina, se as normas da legislação trabalhista fossem respeitadas, se o trabalho não fosse insalubre ... e mesmo assim o cidadão “engembrado” se visse inválido para trabalhar, deveria buscar o benefício com a carteira de trabalho assinada numa mão e laudos médicos na outra.

A defesa do acusado: não é o caso de trabalho escravo, porque em sua grande bondade, o dono da pedreira evitou assinar a carteira dos trabalhadores para não tirar os direitos de agricultor (aposentadoria rural, garantia safra, pronaf) do cidadão. Mesmo alquebrado pela marreta, que faça a feira com dinheiro da marreta e tenha comprado uma motocicleta com o recurso que a marreta lhe dá, para se aposentar é agricultor.

A bondade do dono da pedreira seria tão grande que para não prejudicar os agricultores que lá trabalham com marretas e punções, ele montou a pedreira num esconderijo, no meio das serras e do mato, aonde só vai e só fica quem “é livre” para escolher onde quer trabalhar.

A culpa não é do culpado, que afinal estava só ganhando o seu dinheiro. O suor, os calos, os cortes e vértebras lesionadas são de outros que assim desejaram trabalhar livres e desimpedidos. A culpa é de quem denunciou, de quem fiscalizou, de quem multou, de quem julgou, de quem publicou, de quem comentou e de quem se abismou com tal situação.

As despesas com a destruição dos corpos ressecados na ganância da pedreira quem pagará é o povo brasileiro.


Em tempo: No Congresso Nacional comandado por gente como Cunha, Calheiros e Jucá, transita uma proposição para flexibilizar a tipificação do crime de trabalho escravo contemporâneo. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Contas do governo: por trás das narrativas

As mentiras são histórias verdadeiras, sem deixar de serem mentiras. As mentiras têm intenções e efeitos. A narrativa de mentiras montadas no Brasil após a reeleição da presidenta Dilma Rousseff tem como objetivo a tomada do poder pelos que não tem votos suficientes para fazê-lo pela via democrática.

A primeira mentira disseminada à exaustão pelas forças econômicas e políticas derrotadas em 2014 é da falência do país. Em meio a mais longa crise do capitalismo mundial, os déficits nas contas governamentais é intencionalmente confundido com a bancarrota do Estado. Divulga-se um ambiente de desconfiança e insegurança que alimenta a crise.

Por trás da narrativa de desconfiança há quem ganhe centenas de bilhões de reais desembolsados dos cofres da União: Os bancos privados e demais credores da dívida pública interna, que em 2015 levaram 900 bilhões de reais do orçamento federal, no maior dos rombos feitos anualmente contra o erário.

O Brasil dos governos de Lula e Dilma acumulou uma das maiores reservas de divisas do mundo: São 371 bilhões de dólares em mãos do Banco Central, ou cerca de 1,3 trilhões de reais. Esse valor é muitas vezes maior do que o déficit fiscal reconhecido pela presidenta Dilma para o ano de 2016.

Por que o presidente interino fala, então de um déficit de 170 bilhões de reais no orçamento federal em 2016? Para construir o discurso de terra arrasada. Para criar a narrativa de que a presidenta eleita quebrou o país e então, por este motivo, a derrubada do governo está justificada.

Esta narrativa de falência fiscal quer dar base às medidas neoliberais que o governo golpista que adotar: desobrigar gastos mínimos com educação e saúde, cortes nos programas sociais. O que querem é fazer com os futuros superávits?

Com tais recursos oriundos dos cortes em gastos com o povo o governo sem votos quer garantir mais recursos do orçamento federal para pagar os especuladores que faturam com os títulos da dívida pública. Em suma, a prioridade do governo golpista é para os mais ricos entre os ricos.

Por que o governo interino formado pela aliança de PMDB-PSDB-DEM-PPS anuncia medidas fiscais para restabelecer a credibilidade do país, mas não encara a questão da reforma tributária? Não é verdade que seria para não aumentar a alta carga tributária, que é de cerca de 36 % (trinta e seis por cento do PIB). Na verdade é para impedir o debate sobre os custos públicos do Brasil.

O debate sobre aumento de tributos desvelaria por um lado que a extinção da CPMF não teve nada de patriótico e foi uma medida para asfixiar o governo de Lula da Silva e ao mesmo tempo facilitar a vida dos sonegadores. Por outro lado, o debate sobre aumento de tributos criaria a oportunidade da discussão e embate em favor da taxação das grandes fortunas, uma medida de justiça tributária num país campeão em concentração de renda e patrimônio.

O que está sendo anunciado pelo poderoso Henrique Meireles, ministro da Fazenda no governo golpista, são medidas que pretendem preparar o terreno para o desmantelamento dos programas governamentais que priorizam, desde o primeiro governo Lula, a cidadania das pessoas mais pobres.

Os cortes nos gastos com o povo são para aumentar os gastos com os mais ricos que sangram o país deste que Cabral aportou neste continente. Mas, é preciso convencer a população de que com Dilma estava tudo errado. – O governo golpista tem pressa.


Ou o povo sem medo amplia a luta ou o golpe contra a democracia brasileira vai avançar em novos golpes contra os direitos conquistados. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um dia após o golpe

“Vamos se embebedar cambada ... passar Dilma no copo” (Rodolfo Canelão)
“Dilma é honesta e trabalhou muito, mas deu azar ... o roubo dos políticos   estourou na mão dela”  (Alba Lúcia)

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende o golpe perpetrado pelo parlamento brasileiro e ao mesmo tempo diz que Dilma é honrada e honesta. Por vias tortas FHC quer atingir Lula da Silva, o próximo alvo da plutocracia que se apodera da presidência da República neste fatídico 12 de maio de 2016. – FHC assim como Aécio e Marina são maus perdedores e têm fraqueza de caráter.

Renan Calheiros, posando de magistrado, mas atolado até a medula nas denúncias de corrupção, se diz convicto acerca da conveniência da adoção do parlamentarismo no Brasil. Em suma: o primeiro ministro do Brasil seria Eduardo Cunha ou o próprio Calheiros. A presidenta eleita seria uma peça decorativa da política brasileira. – Entregar o ouro aos bandidos que controlam o Congresso Nacional.

Dilma cometeu erros e erros. Para o infinitesimal número de famílias mais ricas do país, aquele pessoal que detém a propriedade dos bancos, das emissoras de TV e dos títulos da dívida pública, o grave erro de Dilma foi ousar derrubar os juros da economia brasileira. – Essa plutocracia não aceita o PT.

Ao reduzir os juros, por um lado o governo passou a pagar menos aos credores da Dívida, por outro lado passou a dispor de mais dinheiro para investimentos em infraestrutura e programas sociais.

Mas Dilma mexeu noutro vespeiro: ao reduzir as tarifas de energia elétrica, Dilma atingiu os lucros dos investidores que compraram as empresas de energia privatizadas na era FHC. – Dilma pôs fim aos apagões no país, mas o que isso importa para especuladores?

Dilma cometeu erros. Um grave erro foi abrir mão de arrecadar centenas de bilhões de reais em tributos em nome da manutenção do pleno emprego, mesmo em meio ao turbilhão da mais longa crise econômica do mundo capitalista. O segundo erro grave foi adotar a política de torniquete fiscal de Joaquim Levy, um remédio que mais mata do que cura.

Para os políticos que dominam o Congresso Nacional, o maior “erro” de Dilma não pode ser dito: Não fazer concessões às desonestidades dos políticos desonestos. A mídia oposicionista acusa a presidenta eleita de ser uma pessoa “sem jogo de cintura”. Exatamente assim: ter jogo de cintura é jogar o jogo dos corruptos. – Com Dilma não!

Um golpe na Câmara, liderado por Eduardo Cunha e outro golpe no Senado, liderado por Renan Calheiros. A bandeira do combate à corrupção, na mão do PIG (Partido da Imprensa Golpista) vale para criar mal-estar e dar sustentação ao golpe. Não vale contra os algozes de Dilma? Não vale contra os sonegadores? – Não vale não.

A classe média “coxinha” apoiou maciçamente Eduardo Cunha contra Dilma Rousseff. À classe média “coxinha” uma pergunta: Onde vai enfiar o ódio após o catártico golpe contra a presidenta eleita? – “Coxinha” é termo pejorativo para designar a classe média meritocrática. “Coxinha” é o eufemismo. É golpista mesmo.

A operação Lava-Jato cumpriu o papel colateral de municiar o PIG com a construção do mal-estar com a política. À Operação Lava-Jato uma pergunta: Quando vai dar as caras de novo ou só vai dar as caras se for para incriminar Lula e botar Lula na cadeia?

E o povo como reagirá? – Os tolos passarão Dilma no copo. Os sábios lhe absolverão.

Em tempo: O golpe vai doer e não vai ficar barato.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Serra Branca 2016: a união das oposições

Do governo Dudu Torreão-Joda Zuza saem duas candidaturas a prefeito de Serra Branca. Sem entrar no mérito das figuras prepostas, não é difícil muito esforço para discernir o que está acontecendo nas entranhas governistas: Há uma disputa entre eles, que pode dar lugar a uma grande negociata de votos, cargos e dinheiro.

A candidatura de Flávio Henrique é diretamente tutelada pelo prefeito Dudu Torreão, dentro da mais tradicional política de base familiar, mas não só: é sustentada pelo vereador Paulo Sérgio de Raquel, o vereador preferido do prefeito, por Marcelo Jackson, o fantasmagórico médico tecnocrata e pelo vereador Hercules Holanda, figura  que dispensa comentários.

A candidatura da “família” costura ainda o apoio da ex-prefeita Alda Dias e de Odívio Nóbrega, que tem um vereador para chamar de seu. Aqui, pode acontecer tudo, inclusive nada.

Do mesmo lado de dentro do governo municipal, sai a candidatura de Vicente Fialho  Souzinha, tutelado pelo vice-prefeito Joda Zuza, mas que tem no líder do governo Dudu, o vereador Carlos Kleber, o principal porta-voz.

A candidatura do Souzinha lembra os tempos das sublegendas partidárias no ocaso do Regime Militar, que permitia a cada partido lançar mais de um candidato na disputa majoritária. Tanto é que o Souzinha conta com o apoio de secretários e servidores comissionados que continuam no governo de Dudu e Joda. Souzinha também está negociando o apoio do andrógino grupo de Alda Dias.

Até aqui, nenhuma diferença foi marcada entre as duas candidaturas. Por exemplo, todos, de Dudu Torreão a Joda Zuza, de Flavio Henrique a Souzinha, de Hercules Holanda a Carlos Kleber, fazem um silêncio sepulcral sobre o pagamento de quase 500 mil reais pagos em notas fiscais frias da Secretaria de Serviços Urbanos.

Nesses dias, o bloco governista local conseguiu traduzir-se pelas lágrimas torrenciais do prefeito Dudu Torreão, lastimando-se do distanciamento dos correligionários,  Vicente Fialho Souzinha, Joda Zuza e Carlos Kleber. Estão vazando saudades uns dos outros.

A essa altura dos acontecimentos, a proposta de Guilherme Gaudêncio, candidato a prefeito do PSB, em unificar toda a oposição em uma única candidatura é uma oportunidade para passar a limpo quem é oposição e quem está tentando enganar a população de Serra Branca.

O PT tem todos os motivos para renovar a aliança com o PSB, somando esforços com os demais partidos da oposição. Os partidos já caminharam juntos em tempos de escassez eleitoral e alcançaram grandes vitórias políticas em Serra Branca, na Paraíba e no Brasil.

É preciso crer na seriedade e boa vontade do PSB de Serra Branca em unificar toda a oposição para representar o sentimento de mudança que a maioria da população expressa.

A divisão das forças oposicionistas beneficiou o grupo de Dudu Torreão e Joda Zuza, Souzinha e Flávio Henrique, Hercules Holanda e Carlos Kleber, que conseguiram derrotar a maioria oposicionista em 2012. Esse erro não pode se repetir.


O Partido dos Trabalhadores, liderado pelo Professor Galeguinho nesta quadra político-eleitoral histórica, também se propõe a unificar toda a oposição numa frente política popular, programática e progressista. O todo que virá com certeza será maior e melhor do que a simples soma das partes. Serra Branca só tem a ganhar.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Teu ódio será tua herança

Na manhã seguinte ao fatídico domingo de 17 de abril de 2016, no corredor do Colégio Estadual de Serra Branca, um respeitado professor, discreto simpatizante do PT, escuta a ameaça de um jovem estudante: “Bolsonaro vai mandar matar os petistas”. Detalhe: o jovem é de uma família que vive de Bíblia em punho.

Na terça-feira ligo o rádio e lá pelas tantas um ouvinte telefona para lamentar a postura da maioria dos deputados e deputadas na sessão que aprovou a denúncia pelo impedimento da presidenta Dilma. No comentário o radialista consegue por toda a culpa nos 54 milhões de pessoas que votaram a favor da reeleição da presidenta.

O deputado Jair Bolsonaro homenageou Ultra o torturador-mor da Ditadura Militar e seviciador da jovem Dilma Vana Rousseff e de outras prisioneiras. Foi festejado por milhões de brasileiras e de brasileiros.

Um dia, no estado de Pernambuco, uma mulher mandou produzir e distribuir adesivos para colar na boca dos tanques de gasolina dos carros: Uma colagem de duas fotos, uma mulher de pernas abertas e cabeça da presidenta Dilma. A ideia disseminada aludir a um estupro contra Dilma a cada abastecimento dos carros.

Outro dia, um homem aborda um frentista em um posto de gasolina e começa a agredi-lo por sua condição de ser um haitiano que Cuba teria mandado para o Brasil para tomar o emprego dos brasileiros.

Lá no Sul uma médica pediatra recusa-se a atender uma criança doente “porque a mãe da criança é petista”. Pior, a dita médica recebeu o apoio do plano de saúde para o qual trabalha.

Numa esquina de São Paulo, jovens agridem um casal simplesmente porque ela vestia uma blusa vermelha e ele é barbudo, gente com “jeito de petistas”.

Nas redes sociais, um jovem serra-branquense estudante de engenharia civil, argumenta contra ex-presidente Lula: “Esse velho gagá deveria se aposentar e calar a boca”.

Na Avenida Paulista homens e mulheres, vestindo camisas da CBF, carregavam uma faixa com as seguintes palavras contra Dilma: “Se balançar essa quenga cai!”.

Em Brasília, o senador Ronaldo Caiado (DEM) distribuiu camisas amarelas com uma mão negra estampada. Detalhe: A mão tem um dedo cortado, numa alusão ao acidente que decepou um dedo de Lula quando ele era metalúrgico.

Racistas atacam atrizes nas redes sociais. Zombam de seus cabelos crespos e de serem “macacas” fora do contexto.

Nos corredores da Câmara dos deputados o deputado Bolsonaro declarou que só não estuprava a deputada petista Maria do Rosário porque ela “não é digna de um estrupo” de um homem da estirpe dele.

Do campus da UFCG em Sumé, um professor de Ciências Sociais telefona para uma emissora de rádio para declarar apoio à condução coercitiva do ex-presidente Lula por decisão do juiz Sérgio Moro.

Nas redes sociais um policial federal pergunta aos que se manifestam contra o impeachment: “Vai ter pão com mortadela?”

Na última quadra o ódio foi plantado e cultivado na sociedade brasileira. A semente brotou e sua planta não foi arrancada. Todos os dias setores da mídia regam o ódio, disseminando um mal estar generalizado no país onde “nada dá certo” e sugerindo os culpados.

Grupos fundamentalistas aproveitam o mal estar, identificam os culpados, pregam o fim dos tempos e o enfretamento ao anticristo: O PT, os homossexuais, os negros, os índios, os sem-terra, os sem-teto, os drogados, os jovens das periferias. 


As reações ao ódio precisam ser inteligentes, não podem ser de medo ou acomodação.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pelo avesso

Quando paixão e o ódio são faces da mesma moeda as pessoas cegam, reescrevem histórias e acreditam nos próprios equívocos, erros, quando não engodos.

Por exemplo, justificar o golpe contra a presidenta Dilma alegando que o PT, comandado por José Dirceu, defendeu o impedimento do mandato de Fernando Henrique Cardoso. Como José Dirceu é a “Geni” da temporada, a mentira pode colar se não for desmentida.

Foi exatamente o contrário: José Dirceu foi um dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores que na década de 1990 liderou os processos de exclusão e de expulsão dos agrupamentos que defenderam o “Fora FHC”. Vários agrupamentos saíram do PT, dando origem a partidos de extrema esquerda como o PSTU.

Os erros do PT e de Dirceu são outros, mas não há nenhuma resolução partidária pelo impedimento de qualquer presidente da República. Falar ao contrário disto é contar a história pelo avesso.

No Brasil contemporâneo, o absurdo do avesso é conviver com a maior inversão de valores da história do país: O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o multi-denunciado por crimes de corrupção, comandar um processo de impeachment de uma presidenta reconhecidamente honesta, por seus adversários aqui e por amplos setores da chamada opinião pública no exterior.

Pior é saber que aqueles que se unem a Eduardo Cunha na empreitada para derrubar a presidenta Dilma Rousseff são, por ampla maioria, políticos como o vice-presidente Michel Temer, acusados de prática de corrupção, delatados em várias investigações e respondendo por crimes na justiça brasileira e no exterior.

Políticos delatados, indiciados, denunciados por prática de corrupção, comandados pelo mega-corrupto Eduardo Cunha, em conluio para golpear “uma das raras figuras da política brasileira que não tem suspeita ou acusação de enriquecimento ilícito” como mancheteou reconhecido jornal dos Estados Unidos. – Isto é uma história azavessada.

Como sempre pode piorar, porque a história não transcorre necessariamente em estágios sucessivos para melhor. E piorou: o país se depara com a mais alta corte da Justiça, o Supremo Tribunal Federal (STF), assistindo ao espetáculo do impeachment comandado por um Eduardo Cunha que é réu no próprio STF, denunciado pelo roubo de dinheiro do Estado brasileiro.

Um réu do Supremo Tribunal Federal comandando uma denúncia para tentar derrubar uma presidenta contra a qual não há uma única denúncia de desonestidade – “Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso?”

Quando as paixões serenarem – e o ódio é uma paixão com sinal negativo – as pessoas lerão nos livros de história como perderam o bom senso e, açoitados por uma mídia que tem ódio de classe, ajudaram Cunha, Temer, Cássio, Paulinho, Aécio, Alkmin, Richa, Maluf, Geidel, Agripino Maia e toda a sua turma a contar uma narrativa pelo avesso.

Quando as paixões refluírem e as pessoas que hoje odeiam e agem em manadas – porque o ódio faz das pessoas autômatos – recuperarem a autonomia, como frisa Marilena Chauí dialogando com Spinosa, talvez, resgatem a capacidade de pensar e de auto-crítica. Talvez venham a se envergonhar do erro de marchar com os corruptos, contra uma rara figura honesta na política brasileira.


Em tempo de tempos sombrios: “Nada a temer, senão o correr da luta. Nada a fazer senão esquecer o medo.”

quinta-feira, 31 de março de 2016

O crime de Dilma?

1. Está lá na internet, a um clik, num dicionário etimológico, sobre a origem da palavra corrupção: “Antes de designar a venda ilegal de favores por representantes do poder público, corrupção é deterioração, decomposição física, apodrecimento. Corrupto vem do latim corruptus, particípio de "corromper": é o corrompido, o podre, o que se deixou estragar.”

2. O teólogo Leonardo Boff faz uma arqueologia da palavra corrupção:

“Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original, expressão que não consta na Bíblia, a palavra foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção.”

Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus) e pervertido. Cita o Gênesis: “a tendência do coração é desviante desde a mais tenra idade” (8,21).

O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer: “somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita ao desvio que é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, senão segue sua tendência.

3. Segue outro verbete: de corrumpere, “destruir, estragar”, de com-, intensificativo, mais rumpere, “quebrar, partir, arrebentar”. Este substantivo representa tudo o que pode ser feito de mau por poucos para quebrar a esperança e o futuro de muitos.

4. No Brasil, a bandeira do combate à corrupção sempre é hasteada quando governos desenvolvimentistas estão em curso. Foi assim com Getúlio, Juscelino Kubitschek e João Goulart, sistematicamente acusado de corruptos.  – Nenhuma acusação de prática de corrupção foi comprovada.

5. O combate à corrupção é bandeira desfraldada também para eleger super-heróis. Foi o grande trunfo de campanha de Jânio Quadros e de Fernando Collor de Mello – e foram efêmeros os seus governos. Como efêmeras foram as glórias políticas e a popularidade de Joaquim Barbosa, o Batman do combate à corrupção. 

7. No tempo presente a corrupção é narrativa para desconstruir o presidente mais popular da história do Brasil. Lula da Silva está sendo caçado pela mídia e por setores do judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal. Procuram algo, qualquer coisa, mesmo que seja uma quinquilharia, para provar que Lula é corrupto.

8. Enquanto contra presidenta Dilma não há denúncia de corrupção pululam acusações de corrupção contra Eduardo Cunha, Temer, Aécio Neves, Alkmin, Serra, Agripino Maia, Paulinho da Força. O crime de que Dilma é acusada é mais sofisticado e inédito: prática de “pedaladas fiscais”. Não é de roubo, propina, contas secretas, sonegação fiscal.


Crime de pedaladas fiscais! – Você já parou para pensar nisto?  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Serra Branca no prejuízo

A tabela abaixo é um relatório simplificado dos convênios contratados pelo município de Serra Branca junto ao governo federal nos últimos dez anos e que não foram executados ou concluídos pela administração municipal. São recursos extra orçamentários, ou seja, dinheiro que não é do próprio município, mas de transferências voluntárias do governo federal.

Grande parte desses convênios foi assinada nos dois últimos anos do governo petista no município, o que corresponde a um montante de R$ 11.133.000,00 (onze milhões e cento e trinta e três mil reais)

Os convênios contratados nos últimos sete anos de governo de Eduardo Torreão somam R$ 3.070,00 (três milhões e setenta mil reais).

Já o convênio de R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais) para a construção da primeira etapa útil da obra do aterro sanitário comum aos municípios de Serra Branca e Sumé foi assinado pelo então prefeito Vavá Paulino, deste último município.

Após mais de sete anos ininterruptos da gestão atual, a não execução e o abandono de obras que poderiam estar a disposição da população de Serra Branca vai muito além do montante de R$ 14.803.000,00 (quatorze milhões e oitocentos e três mil reais) dos convênios.

Além dos serviços que não são disponibilizados para melhorar a qualidade de vida dos munícipes e visitantes, centenas de empregos direitos e indiretos deixaram de ser criados no município.


Veja a tabela abaixo e tire as suas próprias conclusões:

OBRA
INSTITUIÇÃO FEDERAL
VALOR DO CONVÊNIO
SITUAÇÃO ATUAL
DO CONVÊNIO
ÉPOCA DA CONTRATAÇÃO





ESGOTAMENTO SANITÁRIO (1ª ETAPA)
FUNASA
2.800.000,00
OBRA ATRASADA
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
ESGOTAMENTO SANITÁRIO (COMPLEMENTAÇÃO À 1ª ETAPA)
FUNASA
150.000,00
170.000,00
ABANDONADOS
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
170 CISTERNAS
FUNASA
450.000,00
ABANDONADO
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
SISTEMAS DE ÁGUA DAS LAGOINHAS, FEIJÃO-VÁRZEA NOVA, SERRINHA, LIGEIRO DE BAIXO, SALÃO E CANTINHO
FUNASA
2.000.000,00
O PROJETO ORIGINAL FOI ALTERADO E A OBRA ESTÁ ATRASADA (APENAS LAGOINHAS RECEBE ÁGUA)
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
228 CASAS POPULARES
MINISTÉRIO DAS CIDADES
3.953.000,00
ABANDONADO
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
CALÇAMENTO DOS PEREIROS
MINISTÉRIO DAS CIDADES
390.000,00
OBRA ATRASADA
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
CALÇAMENTO DO AHU (2ª ETAPA) E ODONZÃO (1ª ETAPA)
MINISTÉRIO DAS CIDADES
1.000.000,00
OBRA ATRASADA (FRAUDE NA LICITAÇÃO)
Convenio do governo anterior Lula/Zizo)
25 BARRAGENS SUBTERRÂNEAS
MINISTÉRIO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO
125.000,00
ABANDONADO
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo)
COZINHA COMUNITÁRIA
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMETO SOCIAL
95.000,00
ABANDONADO
Convenio do governo anterior (Lula/Zizo)
ATERRO SANITÁRIO (1ª ETAPA)
FUNASA
600.000,00
ABANDONADO
Convênio do governo anterior (Lula/Zizo/Vavá Paulino)





CRECHE DOS PEREIROS
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
1.300.000,00
OBRA ATRASADA
Convênio do governo atual (Dilma/Dudu)
QUADRA DA ESCOLA CÔNEGO JOÃO MARQUES
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
100.000,00
OBRA ATRASADA
Convênio governo atual (Dilma/Dudu)
POSTO DE SAÚDE DO BATALHÃO
MINISTÉRIO DA SAÚDE
240.000,00 + 230.000,00
OBRA ATRASADA
Convênio do governo atual (Dilma/Dudu)
UPA – UNIDADE DE PRONTO ATENDIMENTO
MINISTÉRIO DA SAÚDE
1.200.000,00
OBRA ATRASADA
Convênio do governo atual (Dilma/Dudu)

Diante desse quadro, que atitude deve ser tomada pela população de Serra Branca e pelos partidos que fazem oposição ao governo de Eduardo Torreão?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Caça à Lula: complexo de inferioridade da elite

Dias desses Chico Buarque foi atacado nas ruas do Leblon por playboys “indignados” com a militância política do poeta, aliado das causas democráticas e populares. Ao ódio com que foi atacado, Chico Buarque reagiu com uma tirada que deixaria Nietzsche com inveja: “Deixa o ódio prá quem tem”.

Por falar em ódio, Nietzsche cunhou, entre outras, esta pérola em uma das seções de “Além do Bem e do Mal”: Não se odeia enquanto continua a se julgar algo como inferior, mas somente quando se julga como igual ou superior.

Em suma, quem tem ódio tem também um sentimento de inferioridade ante o odiado. – Não é difícil imaginar a perspectiva de inferioridade daquelas figuras que insultaram Chico Buarque e a sua colossidade.

Pois o ódio viceja na sociedade brasileira nesse período recente. O ódio saiu do armário. As mais recentes manifestações de ódio se voltam contra a presidenta Dilma, o ex-presidente Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores. Uns dizem que é ódio de classe. Mas ódio precisa de predicados? O ódio se basta, sem adjetivos.

É curioso como o ódio disseminado pela velha mídia, em aliança com setores do Ministério Público e da Justiça, se volta contra sujeitos do campo das esquerdas políticas, mas que buscaram e buscam a conciliação e não a luta de classes.

Tanto Lula quanto Dilma tem lado na sociedade de classes, mas em vez de rupturas, escolheram a maré que sobe para todos. Ao contrário do que acusavam nos idos de 1980, Lula nunca pregou a radicalização da luta de classes. Pelo contrário, na sua tradição sindicalista, sempre buscou a negociação e a síntese com ganhos para todos.

A jovem Dilma acreditou na loucura da luta armada e da oposição clandestina. Mas, a Dilma presidenta, mesmo metendo a mão em alguns vespeiros, também não radicalizou. Errou e acertou conciliando. Durante o seu primeiro governo chegou a obter invejável aprovação vertical de popularidade.

No Brasil de histórica e notória desigualdade econômica e social, nem Lula nem Dilma ousaram liderar qualquer reforma contundente dentre as que o país precisa. Seus governos transformaram o Brasil para melhor porque atacaram urgências gritantes, como a fome, a exclusão do ensino universitário e a falta de atendimento em saúde básica, mas sem mexer nas estruturas.

O social-desenvolvimentismo de Lula e Dilma causaram impactos onde todos saíram ganhando. – Aliás, a incipiente, mas palpável distribuição de renda realizada no Brasil nos últimos 13 anos foi feita sem que nenhuma classe saísse perdendo. Uns mais outros menos, mas todos ganharam.

Se ninguém perdeu e todos ganharam, é de se perguntar: Por que tanto ódio? – Alguém, em sã consciência e honestidade acredita que esse ódio que se manifesta contra Lula, Dilma e o PT tem como causa os erros cometidos e/ou atribuídos a algumas figuras do PT e do governo?

Neste país, onde o “jeitinho brasileiro” é uma instituição agenciada todos os dias por dezenas de milhões de pessoas e tolerada por outras tantas, dá para acreditar que o ódio é por causa e contra a corrupção? – A chamada opinião pública reconhece que este governo é o que mais combate a corrupção na história da República.

Há quatro décadas Lula da Silva é caçado neste país. A caçada a Lula só deu uma trégua quando os atiradores priorizaram a caça à Dilma Roussef. – Aliás, a caçada à Dilma também mira Lula. 

Até, aqui, com todos os contorcionismos feitos por policiais federais, promotores públicos, juízes e pela grande imprensa, não conseguiram abater Lula, como não abateram Dilma. Mas não cessarão. A pistolagem político-midiática não dará tréguas até 2018 pelo menos.

O ódio a Lula, à Dilma e ao PT, forjado e cultivado pelas elites brasileiras, tem um ingrediente político de: a disputa entre dois projetos. Querem exterminar Lula, Dilma, o PT e qualquer coisa parecida para revogar o projeto social desenvolvimentista que sequer chega a ameaçar o capitalismo tupiniquim.


Mas isto explicaria a sistemática campanha de ódio? Não haveria nesta caçada de ódio um recalque político, um complexo de inferioridade da elite econômica e midiática e da classe média diante da liderança política de Lula?

sábado, 23 de janeiro de 2016

Serra Branca: a quem interessa a paz dos cemitérios?

Os participantes dos inúmeros governos de Dudu Torreão agora constroem a falsa tese de que o atraso e o caos na gestão municipal é consequência de uma briga política e que essa briga seria entre pessoas. – A falsa tese surge no momento em que o atual prefeito não pode ser candidato. Antes não se falava em “briga”.

Trata-se de uma desculpa cínica porque votam seguidas vezes no mesmo projeto, locupletam-se com os recursos e empregos do tesouro municipal durante 16 anos, colaboram com o desgoverno e a desonestidade que impera na prefeitura e depois alegam que uma “briga” entre pessoas prejudica o município.

Querem dividir o próprio erro com quem nunca votou em Dudu Torreão. Esses “duduzistas” que corroem o erário público buscam fugir da própria culpa. Querem confundir e impedir o debate e a disputa eleitoral que se avizinha. – Não passarão porque com o PT não funciona assim.

Pejorativamente circula na cidade o neologismo “duduente” para designar os que defendem o prefeito Dudu em qualquer circunstância. Na verdade, “duduzistas” e sua respectiva corruptela “duduentes” não significam outra coisa senão a prática política de quem defende e compõe o mesmo projeto do qual o prefeito Dudu Torreão faz parte e representa. 

A falsa tese de que uma “briga” política está prejudicando o município de Serra Branca foi comprada por figuras que apoiaram Dudu Torreão em várias eleições e governos. Esses “ex-duduzistas”, ainda confusos na leitura da política, não conseguem se desvencilhar da ideia arcaica de confundir a disputa de projetos com a disputa entre pessoas. – Vestiram-se com uma roupa nova sem tomar banho.

Os novatos da política municipal também embarcam na falsa tese da “briga que atrapalha Serra Branca”. Alheios à luta cotidiana da política local, não conseguem oxigenar o ambiente com uma leitura e uma prática que fortaleça a política democrática. – São como “cristãos novos”, travestem-se para dizer que são o que não são.

Também os desavisados, que nunca leram um verbete sequer sobre política e democracia, talvez não queiram, mas, a crerem na historinha da “briga política” estão, sem saber, contribuindo com os que querem a perpetuação da cultura política personalista, patrimonialista e corrupta.

Aliás, acreditar na existência de “duduzistas” é não saber que Dudu Torreão está arrodeado de mercenários e sócios numa relação com prazo de validade até o dia 31 de dezembro de 2016. – “Duduzistas” e “duduentes” não “brigam” por Dudu Torreão. Por mais que este acredite e incite, aqueles apenas defendem os cifrões que mamam nas tetas do poder.

Os que usam o argumento de que o Partido dos Trabalhadores “briga” contra Dudu Torreão têm, em suma, uma leitura autoritária da política, porque não querem disputa entre projetos, disputa democrática. Querem conchavos. Querem fuxicos. Querem boatos. Querem a força do dinheiro nas eleições. Não querem mudanças substantivas.

Os que alegam o engodo da “briga” contra Dudu Torreão querem esconder os problemas do município. Esconder as culpas e os culpados. Querem se esconder e esconder Dudu Torreão. Não querem luta política. Querem ficar em paz no poder. E para a cidade querem a paz do cemitério: Tudo parado.

O Partido dos Trabalhadores acredita na democracia e não abre mão da luta política. Não abre mão do debate público. O PT faz política todo dia e vai travar a disputa eleitoral entre diferentes projetos políticos para o município. O PT constrói consensos com quem quer mudança de verdade e faz disputa democrática e programática com os adversários.


Em tempo: “O morno, vomita-se!”